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4 de Jun de 2017

SOMOS FEITOS DE HISTÓRIAS

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Editado: 4 de Jun de 2017

 

 

Leio em Inês da minha alma, livro de Isabel Allende, a surpresa da protagonista ao contar um "congresso" anual de índios mapuche (é assim mesmo, sem plural), no início da conquista do Chile, para celebrar os seus antepassados. Os anciãos juntavam o povo e contavam suas histórias, que eram aprendidas pelos jovens. Ao retornarem às aldeias, pareciam mais felizes e dispostos. Na falta da escrita, a oralidade mantinha os mapuche unidos aos vínculos de povo e família.

Contar histórias para as crianças é unanimidade entre pedagogos e psicólogos, embora se possa contar nos dedos quem o pratique. É muito mais cômodo comprar um DVD ou fazer assinatura de TV a cabo. Esse segredo simples, é um daqueles tantos outros: são óbvios, mas ninguém leva a sério. Contar histórias fica ao encargo da escola, isso quando essa não se resume ao cumprimento de programas conteudísticos, o que acontece na maioria das vezes.

A coesão narrativa tem o dom de costurar os fragmentos da vida no mundo, dá unidade, constrói sentido, demonstra as crises dos desejos e os empecilhos aos sonhos. As boas histórias não precisam de enredos magníficos, ou peripécias incríveis. Basta um ser humano, ou algo que lhe seja metáfora, em busca da realização de um desejo. Este desejo pode ser a fuga de uma vida medíocre como em Madame Bovary, ou o desejo de trazer um peixe para a terra, como em O Velho e o Mar, ou, simplesmente, em destruir gigantes imaginários por amor, como em Dom Quixote.

Essa característica da linguagem, pelo que se sabe até hoje, é apenas inerente ao ser humano. Embora se saiba que golfinhos se comuniquem, que pinguins resmunguem, que os elefantes soltem gritos alertando perigos, não se imagina qualquer desses animais relatando a história da família aos filhotes, ou fazendo-os dormir com contos de fadas ou bruxas.

Há poucos dias, uma rede de televisão fez uma reportagem sobre uma experiência médica com prematuros. Um grupo deles foi submetido à contação de histórias por voluntários ou familiares, outro teve apenas o tratamento convencional.

A experiência revelou uma significativa melhora naqueles bebês que ouviam histórias, um aumento da resistência às infecções, e uma estabilização dos batimentos cardíacos, entre outras melhoras. A voz humana, além do enredo - que seguramente os recém nascidos não entendem - transmite emoções. Segundo a médica, este vínculo afetivo com a voz é que produz os efeitos físicos.

Sempre soubemos que as histórias, lidas ou ouvidas, eram remédios para as dores da alma. Agora sabemos de seu efeito terapêutico também para o corpo. Os mapuche, sem experiência científica nenhuma, já sabiam bem antes de nós.

 

Pablo Morenno, escritor.

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    Pablo Morenno                                         O pai não é uma imagem racionalizada. Pai é teia de recordações das quais é o próprio fio. Freud diria que o pai habita o superego, cria limites, vigia a consciência; instala-se na cultura como Deus, as leis, o Estado. Para mim, pai é uma teia de recordações das quais é o próprio fio. Um bichinho-da-seda na memória começa a fazer camisas, calças, mantas, cobertas. Inventa casas, ruas, cidades. Transbordamos o pátio com rolos de fios. Quando nos damos conta fizemos boa parte do mundo.                                O pai não é um guarda noturno. O pai é um acendedor de velas. Ao sairmos à rua, acende uma vela e vela o seu fogo. Quando a cera se acaba, ou a querosene enxuga o pavio, ele providencia o sustento. O fogo vigiado pelo pai tem características mágicas. Aceso em casa, ilumina nossos passos onde estivermos. Ao regressarmos, neste tempo de luzes elétricas, eis lá as velas acesas dentro do pai. Quer dizer, acabamos por saber que ele mesmo é uma chama inapagável, inabalável.                                O pai não está atrasado no tempo. O pai, na verdade, foi morar num tempo não chegado ainda. Um dia lá atracaremos. O ser humano, ao tornar-se pai, toma uma máquina do tempo, parte para o futuro, lá ergue sua casa, esperando os filhos chegarem para pedir conselhos. Quando os filhos chegam no futuro, descobrem que seu pai já partiu para o outro lado do tempo. Então, será preciso arrepender-se . Se eles soubessem dessa constituição da vida, teriam pedido conselhos agora. Mas agora seu pai é obsoleto. Para os que aprendem a lição, as coisas se resolvem sendo eles mesmos pais no momento em que chegarem ao futuro. Tornam-se pais conselheiros para que aos filhos não escasseiem  os rumos. O problema é que, na paternidade, sem saber,  tomaram a máquina do tempo e já estão mais à frente. Tudo recomeça.                                 O pai não é alguém quase sempre errado. Pai sempre está errado. Seu primeiro erro é crer em nossa compreensão. Engana-se. O segundo erro do pai  é crer em sua argúcia e convencimento. Ilude-se. Todo pai pensa que seu filho é tão vivido quando ele, sabedor do sentido oculto das coisas.       Pai não é razão. Pai é fogo de velas. Pai é mistério do tempo. Pai é ânsia de explicar e convencer. Daí se deduz: Pai é uma epifania, aparição de ternura e fortaleza circundada por recordações das quais é próprio fio. O que a gente tem de fazer é ficar contemplando, sem perguntar se Freud tinha ou não razão, se Freud teve um pai ou era clone. Pablo Morenno, do livro "Flor de Guernica", Editora Besouro Box.
  • editoraphysalis
    24 de Mai de 2017

    Muitas vezes fui pressionado com a explicar minha literatura com o analfabetismo de meus pais: “Como você se transformou em leitor, primeiro, e escritor, depois, com pais carentes das letras?” Meus pais eram analfabetos, mas eficientes contadores. Nos tempos sem energia elétrica, a família se reunia à noite ao redor do fogão à lenha, e meu pai desfiava histórias. A contação mesclava os contos de terror conhecidos como aqueles de assombração, mas também ouvíamos Negrinho do Pastoreio e Boitatá. Uma ou outra história do Pedro Malasartes se misturava às histórias mais ou menos reais da infância de meu pai. Quando fazia uma pausa, minha mãe tomava a palavra. E assim os olhos iam definhando para dar lugar ao sono. Não é impossível descobrir a leitura por conta própria, mas é muito mais rápido e eficiente quando viemos à luz numa cultura de histórias. Elas, escritas ou contadas, constroem um berço para a fragmentação da vida. Por isso as narrativas nos atraem. Nesse corpo de início, meio e fim, onde o conflito se destrincha, iludimos o cérebro de que nossa vida terá desenlace similar. De algum modo, somos convencidos da unidade semântica da vida. É um jeito inventado de se suportar a existência, e esse é seu principal mérito. Nas viagens pela pampa já encontrei muitos leitores contumazes. E quando relatam o motivo de seu gosto pelos livros, sempre aparece uma figura familiar. Esses meninos e meninas lembram do pai ou da mãe com livros na mão ou lhes contando histórias. Muitas vezes é uma avó ou um avô, um tio, uma tia, irmãos mais velhos ou vizinhos. Ou seja, leitura é herança. Assim como ensinamos os mais novos a andar eretos, a falar, a se alimentar, transmitimos a eles o ato humano de decifrar signos gráficos portadores de significâncias. Nossos descendentes recebem de nós histórias que recebemos de nossos ascendentes, mas também o ato de acordá-las para o mundo. Isso se chama cultura. Em geral a escola promove ações de leitura, mas esquece de motivar a família a participar. Além de motivar os alunos, é sempre bom dar tarefa aos pais ou a outro familiar que conviva com a criança, para que ele participe. Por exemplo, ler junto um livro ou um capítulo de um livro e conversar sobre ele, anotando as conclusões. Outra coisa é motivar a compra de livros, para mostrar aos pais que el é um objeto importante para se ter. Mesmo em escolas de periferia, ninguém é tão miserável que não possa adquirir um livro. Em geral os alunos gastam dinheiro com bonés de marca, celulares ou tênis. Então, será mesmo que não podem comprar um livro? Uma das melhores maneiras das pessoas aprenderem a ser humanos é com os personagens da ficção. Num mundo economicista, pais e avós se preocupam mais em preparar os filhos e netos para o sucesso financeiro e profissional. Esquecem que a vida exige muito mais do que manejo do dinheiro e da carreira. Quando leio em jornais que um jovem ou adolescente foi apreendido, tenho vontade de perguntar se alguma vez, seu pai ou sua mãe leu um livro para ele na infância. E fico imaginando a resposta. Pablo Morenno Pablo Indica: O livro “A Formação do Leitor Literário em Casa e na Escola” (Editora Biruta), de Caio Riter, é um livro obrigatório nas escolas e nas casas, onde se pretende formar leitores. Caio parte de sua experiência como professor e como escritor para indicar um caminho de leitura para pais e professores. Para professores, há um capítulo especial sobre roteiros de leitura. Preço sugerido pela editora: R$ 37,50.
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